sábado, outubro 23, 2004

Finalmente com tempo para dar umas voltas pelo ciberespaço, li o blog Professorices do JVC e, num dos comentários, vi uma referência a este artigo de opinião que saiu no Público de dia 20 de Outubro de 2004:

Artigo de Opinião no Público: Quem tem medo das avaliações?:

"Quem Tem Medo das Avaliações?
Por LUÍS AGUIAR CONRARIA
PÚBLICO, Quarta-feira, 20 de Outubro de 2004

Recebo uma bolsa de estudos do Ministério da Ciência, Inovação e Ensino Superior. Apesar de ser uma bolsa bastante generosa, é tão dispendioso estudar nos EUA que me vi obrigado a ser "teaching assistant". Comecei em Setembro de 2002, no meu segundo ano de doutoramento. No primeiro ano, passei por alguns testes de "aptidão pedagógica". Dois testes, para ser mais preciso. Como o inglês não é a minha língua mãe, sujeitei-me a uma entrevista com o objectivo único de avaliar a minha capacidade de expressão oral. Tive depois de simular 30 minutos de uma aula para avaliarem as minhas capacidades pedagógicas. Com a experiência que levava do Minho não foi difícil passar este teste. Quem chumbou, a maioria, teve de passar o mês de Agosto em acções de formação (remuneradas). Antes do início das aulas, todos os novos "teaching assistants" tiveram mais três dias de acções de formação. Discutiu-se o código de conduta da universidade, alguns "case studies", visionámos vídeos reais de boas e de más aulas.

Para o último dia, estava reservado o melhor. De manhã, enquanto éramos filmados, cada um de nós teve de simular 15 minutos de aula. No fim, recebíamos, por escrito, as críticas dos nossos colegas. À tarde, em conjunto, visionámos os vídeos de cada um, e discutimos as críticas que tínhamos recebido. Terão sido poucos os aspectos que não foram cobertos. Colocação de voz, uso correcto e não caótico do quadro, como evitar estar sempre à frente dos alunos quando estes tentam copiar algo do quadro, as nossas reacções a perguntas mais estúpidas, etc.

A meio de cada semestre, entregamos uns inquéritos aos alunos. Somos avaliados numa série de itens: uso correcto do quadro, disponibilidade para responder a perguntas, assiduidade, etc. O mais interessante são as perguntas de campo aberto, onde temos a ocasião de ver os nossos pontos fracos. Ao longo do ano, são imensas as "workshops" opcionais dedicadas a professores e assistentes sobre técnicas de ensino. Os inquéritos são, posteriormente, entregues ao coordenador dos "teaching assistants". Esse coordenador irá filmar as aulas dos "teaching assistants" mais "problemáticos", analisando com eles quais os aspectos que podem, e devem, ser melhorados. No fim do ano, outros inquéritos são distribuídos. Os alunos avaliam os professores e os "teaching assistants", com perguntas que cobrem diversos aspectos pedagógicos. Os docentes são avaliados com base nestes inquéritos.

São poucas (nenhumas?) as universidades portuguesas que têm estas preocupações pedagógicas. Talvez por isso, os meus melhores mestres tenham sido os do ensino secundário. Estes têm de passar por um estágio no início da carreira e, nalguma fase das suas carreiras, também acabam por ser orientadores de estágio. Poderia destacar vários professores que tive no liceu, mas seria injusto com muitos outros. Refiro apenas dois. O professor Rito, de Matemática, e a dra. Dora Caeiro, de História. Claro que tive bons professores na universidade. A dra. Maria dos Anjos Saraiva, que me devolveu o gosto pela Matemática, o doutor Adelino Fortunato, que quase me roubou da Macroeconomia para a Economia Industrial.

Acho sempre notável que alguns professores se recusem a ser avaliados pelos alunos. O principal argumento é o medo do espírito mesquinho e de vingança dos estudantes, a par com a subjectividade que qualquer avaliação encerra. E o contrário? Não é verdadeiro? Quantos de nós não conhecem casos de pura mesquinhez de alguns professores quando avaliam os alunos? E a subjectividade na avaliação dos alunos, não existe? Pessoas que se recusam a ser avaliadas deviam, por coerência intelectual, recusar-se a avaliar, pelo que não deviam ser professores.

Pergunto também, qual a defesa dos alunos contra as arbitrariedades dos professores? Lembro-me de, no último ano da licenciatura, ter perdido um valor no exame de Gestão Financeira porque a professora não sabia distinguir uma taxa de juro efectiva de uma nominal. Estive uma tarde a discutir com ela este assunto. A minha média final de curso não ficou afectada. Mas podia ter ficado. Aliás, quando isto se passou, eu ainda estava a lutar para chegar ao 15,5 que me daria 16 de nota final. Na altura, senti-me mesquinho em discutir uma nota. Hoje, quando percebo que, pelo critério de atribuição de bolsas do MCIES (pelo menos na área de economia), quem não tem média de 16 na licenciatura tem muito mais dificuldades em obtê-las. Hoje, quando me lembro que, no meu primeiro emprego, em Lisboa, quatro recém-licenciados em economia foram contratados, todos com média de 16. Hoje, quando percebo que se não tivesse tido média de 16 nunca tinha sido contratado pela Universidade do Minho. Hoje, penso que devia ter protestado muito mais.

Em Portugal, os alunos não têm o poder para despedir os professores. Não existe esta "ditadura" dos alunos. Os professores têm medo do espírito mesquinho e de vingança dos estudantes. Claro que pode haver um outro aluno ressabiado e mesquinho. Isso nunca é suficiente para despedir alguém. Mas quantos professores há que são, pura e simplesmente, detestados por quase todos os alunos? Espírito mesquinho destes? Por favor, sejamos mais humildes. Há professores maus, que dão mau nome aos bons. Se quase ninguém gosta de um professor, então com certeza que estamos perante um mau professor.

O que é um bom professor? A resposta a esta pergunta não é assim tão complicada. O que é um bom estudante? A resposta à primeira pergunta está na resposta à segunda. Um bom estudante estuda. Um bom professor estuda também. Um bom aluno sabe a matéria que lhe ensinaram. Um bom professor percebe o que ensina. Um bom aluno questiona o professor. Um bom professor estimula as questões do aluno. Um aluno deve ser curioso e fazer perguntas e questionar certezas. Um professor deve ficar contente de cada vez que não sabe responder a uma questão.

Se a principal função de um professor é ensinar os alunos e nenhum aluno gosta dele, porquê insistir? Nem os alunos estão contentes nem o professor se sente realizado. Não era melhor para todos se o professor se dedicasse a exercer o que estudou? Se é professor de Economia vá ser economista nalguma empresa, ou organização governamental. Se é professor de Química pode ir para um laboratório farmacêutico. Qual é o drama? Tenho consciência de que não é fácil avaliar a qualidade pedagógica de um professor. Compreendo também que haverá alguns bons professores que serão injustiçados se um sistema de avaliação pedagógica, com consequência, for levado avante. Mas não nos esqueçamos de quantas injustiças são criadas ao não haver uma avaliação séria dos professores. É injusto para os alunos. É injusto para os pais. É injusto para os bons professores. É injusto para os potenciais bons professores que não encontram colocação nem nas universidades nem nos politécnicos.

Sabemos que muitas instituições de ensino superior são instituições acomodadas. Sabemos também que há muitos professores acomodados e desencantados. A mudança não partirá das universidades e politécnicos. Terão de ser os alunos a ser mais exigentes e reivindicativos. Terão de ser os alunos a reivindicar mais qualidade, em vez de menos propinas.

Para melhorar a qualidade do ensino nas universidades teremos de encontrar a respostas às questões:

- Como tornar os estudantes muito mais exigentes?

- Como obrigar as universidades a escutarem essas exigências?

Doutorando de Economia na Cornell University e assistente na Universidade do Minho."

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar feedback [Atom]

<< Página inicial